Quinta-feira, Fevereiro 12, 2009

Sobre tatuagens e evolução

"Far away there in the sunshine are my highest aspirations. I may not reach them, but I can look up and see their beauty, believe in them, and try to follow where they lead"
Louisa May Alcott - 1832-1888

Cerca de 4 anos atrás, eu pensei seriamente em fazer uma tatuagem. Nunca eu havia me interessado ou cogitado uma, mas circunstâncias da época me fizeram interessar pelo tema. Eu precisava então decidir qual seria a tatuagem a ser feita. A âncora, o coração, as estrelas, o índio, o dragão, a tribal, nada disso me fascinava. As inscrições em chinês/japonês/coreano/oriental então, mais do que isso: as abomino. Nunca poderia casar com uma mulher que tivesse uma tatuagem em chinês/japonês/coreano/oriental (paz, felicidade, amor, sabedoria e alegria, são basicamente essas as palavras que as pessoas usam). O que eu não entendo é porque tem que ser em japonês??? Claro, parece mais sábio, afinal eles são sábios, e se escrever em português, bom aí é vulgar e coisa de gente burra. Vai entender... Latim é aceitável, desde que não seja Carpe Diem, e grego é exótico, e portanto bonito. Mas enfim...

A minha tatuagem deveria ser algo que tivesse um significado profundo para mim. Não são muitas coisas que se encaixam: meu nome (nunca a de uma namorada! Apagar depois é muito caro), minha família, alguma frase "sábia", alguma letra de música ou poesia, o nome de uma banda (Oasis)... Ou... algo relacionado a ciência, que sempre me fascinou e sempre me fascinará. O símbolo atômico? A estrutura do DNA? O homem vitruviano? Mas o que mais me fascinava era a biologia. Eu estava no mestrado e minha dissertação era baseada na psicologia evolucionária, estando totalmente imerso no mundo da Teoria da Evolução.

Então, a consequência lógica disso era que minha tatuagem seria.. bem, ninguém menos do que Charles Darwin. Sim, o meu braço teria por todo o sempre a foto clássica do velho barbudo, a espantar colegas de trabalho, pessoas na praia e namoradas. Mas eu não me importava, isso tem um significado para mim. Se alguém pode tatuar um índio anônimo, eu poderia tatuar o meu herói científico.


Porque então meu braço hoje continua tão branco quanto sempre foi? Não sei, em algum momento desisti. Talvez a perspectiva de eu espantar qualquer mulher que fosse, nunca mais casar ou ter filhos e viver em celibato fosse um pouco demais para mim. Talvez eu nunca tenha cogitado seriamente, só tenha pensado como um exercício teórico do tipo "E se eu tivesse uma tatuagem, qual seria?". Parte da explicação certamente tem a ver com um episódio bem pessoal envolvendo minha namorada na época, que decidiu fazer uma tatuagem - o que inicialmente me chocou, pois eu achava que a conhecia. Sempre achamos que conhecemos as pessoas das quais somos íntimos. Não. Não conhecemos a nós mesmos, quanto mais outra pessoa. Eu, para provar algo que não sei o que é, pensei que deveria fazer uma também.

Me arrependo de não ter feito? Não, porque ainda posso fazer ela a qualquer momento. Quero? Não, na verdade passou. Eu estaria arrependido se a tivesse feito? Provavelmente não pois a indelebilidade da tatuagem acionaria meu mecanismo de redução de dissonância cognitiva e eu acharia todos motivos para me convencer de que ter feito a tatuagem não só foi bom e certo, como foi o fator responsável por uma transformação pessoal que mudou minha vida e me catapultou ao sucesso. Ok, sou um pouco dramático mesmo.

Mas toda essa história é pra lembrar que esse ano se comemora o aniversário de 200 anos do nascimento de Charles Robert Darwin e 150 anos do lançamento do mais importante livro científico já escrito. Um homem, solitário, sentado sobre o ombro de gigantes, mudando a história do mundo. Esse é o poder da ciência, o poder da humanidade, o poder da beleza, o poder da curiosidade, o poder do amor. Nem tudo está perdido. Espero termos muitos outros Darwins, embora eu já tenha desistido de ser o próximo, como um dia eu sonhei. Mas posso, sim, apreciar a beleza que há em tudo isso. Darwin conclui sua obra com um dos parágrafos mais famosos da história da ciência:

"Há uma grandeza nessa visão da vida, com seus diversos poderes tendo sido originalmente insuflados pelo criador em poucas formas ou numa; e que, enquanto esse planeta tem seguido circulando de acordo com as leis fixas da gravidade, de um início tão simples uma infinidade das mais belas e maravilhosas formas tenha evoluído e esteja evoluindo." (Darwin, 1875, p.429)

Bravo, Darwin!

Terça-feira, Maio 06, 2008

Como desmascarar um vidente


Fui num vidente. Sim, vocês leram direito: visitei um vidente. Os seis ou sete leitores que acompanham meus escritos sabem que sou cético, ateu e não acredito no sobrenatural. Por que então fiz isso? E o que essa experiência me revelou? Segue um relato detalhado do que aconteceu. Tomem suas próprias conclusões.

No início de 2007, movido por uma curiosidade insuportável, acordei às 6 da manhã do sábado para ir até uma cidade do interior, a cerca de 150 Km de Porto Alegre, visitar um vidente. Vamos chamá-lo aqui de Seu Roque (que vem a ser seu nome real :). Cheguei até ele através de uma amiga que relatava adivinhações verdadeiramente fantásticas, do tipo que poderiam abalar minhas crenças mais profundas se fossem confirmadas. Claro, que eu nunca cheguei a me convencer dos poderes mediúnicos do Seu Roque - ainda mais de alguém que tem o nome do ajudante do Sílvio Santos - mas a situação chegou a um ponto em que eu tinha que ver com meus próprios olhos. Em teoria, o vidente conseguia adivinhar coisas profundas sem ao menos saber o nome do cliente.

Pois bem. Quando liguei para marcar a "consulta", Seu Roque perguntou meu nome, quem havia me indicado e de onde eu era. Não inventei nada, respondi à todas perguntas, mas já fiquei desconfiado pois se ele fosse "o cara" não precisava perguntar nada, certo?

Chegamos lá, eu e minha namorada na época, para termos uma perspectiva dupla. Seu Roque me recebeu com um aperto de mão mole, do tipo que irrita e pode revelar preferências ocultas. Ele estava com vários colares e vestia uma camisa de seda, brilhante e vermelha. Chegamos à sua casa, onde são realizadas as consultas. Ele me conduziu à sala, onde havia uma mesa no centro, em cima de um barril, do tipo onde se joga cartas. A mesa era meio torta, sentado nela meu braço ficava inclinado para a esquerda.

E começa o espetáculo! Seu Roque pega um baralho de cartas, bem gastas, e começa a embaralhar. Enquanto isso vai me fazendo perguntas (mais perguntas!). Quando afinal ele começaria a fazer as previsões tão esperadas? Sempre num tom de voz calmo e de baixo volume, "delicado" se vocês me entendem, ele ia perguntando. Meu nome completo, onde morava, o que fazia....

O negócio já começava a me preocupar. Então botou 3 cartas na mesa e disse que cada uma delas significava algo que não lembro. Perguntou porque eu estava ali. "Bem, pra me consultar. Nada específico" [aha! Peguei ele, que certamente esperava ouvir uma ladainha sobre minha saúde / situação financeira / situação amorosa / família / trabalho, tópicos que cobrem 99% das pessoas que consultam videntes.

E então começou o jogo de verdade. Embaralhou de novo as cartas, parecia nervoso, um pouco tenso, e deixava cartas caírem no chão. Espalhou todas e me fez mais umas 15 perguntas: onde trabalhava, em quantos lugares já tinha trabalhado, quanto tempo fiquei em cada emprego, minha profissão. Eu desde o início decidi que ia falar sempre a verdade, pra ter certeza de que as previsões não estivessem contaminadas. Com base nestes dados, apontou 3 cartas de forma aparentemente aleatória e começou sua cantilena. Vejam as previsões por assunto:

Trabalho: disse que alguém na "firma" fez um trabalho forte contra mim, e que esta pessoa iria me atrapalhar. Não identifiquei ninguém com esse perfil, mas sempre tem alguém que não simpatiza com você, então a previsão vale pra praticamente qualquer pessoa. Para me livrar disso eu preciso de uma lavagem espiritual.

Relacionamentos: preciso cuidar do meu relacionamento para ele não ter o fim que outros tiveram (acabaram), o que é algo lógico.

Planos pro futuro: após perguntar quais eram (esperava que ele me dissesse), afirmou que todos se realizariam. Ainda bem, já que isso é o que eu queria ouvir, e o que todo mundo quer ouvir. Se eles não se realizarem é porque faltou um trabalho espiritual. De qualquer forma, não vou poder processar o Seu Roque se eles não se concretizarem.

Família: quis saber quem era minha família, outra coisa que eu esperava que ELE me informasse. "Nome completo do pai?", "Quantos anos?", "O que ele faz?".. Ao saber que meu pai é político, vaticinou sua mais surpreendente previsão: "Seu pai tem que se cuidar com um grupo de políticos que está contra ele". Como ele sabe disso? Afinal, não existem disputas na política e todos concordam com todo mundo. Isso me chocou muito, tanto que já avisei meu pai pra se cuidar.

"Sua mãe vai ter um problema de saúde, mas vai ser passageiro". Hmmm.. outra coisa surpreendente, pois dificilmente as pessoas ficam doentes no decorrer de um ano. Gripes, resfriados e afins são extremamente raros hoje em dia. Já avisei minha mãe também.

"E sua irmã, ela é casada?"

"Não"

"Então ela já foi casada?"

"Hmmmm, não..... mas namora há 10 anos"

"E o namorado dela, já foi casado né?"

"Hmmmm, não.."

"Mas já teve algum relacionamento sério antes dela"

"Hmmmmm, não que eu lembre"

"Rãrãm... eles vão ser muito felizes.", foi o que Ser Roque viu após o diálogo revelador. Já avisei minha irmã.

Após falar um pouco mais sobre minha família, perguntou se eu queria saber mais alguma coisa. Eu dei a consulta por encerrada. Minhas convicções continuaram evidentemente as mesmas de antes da consulta. Videntes são charlatões.

Se você conhece algum vidente daqueles que "sabe tudo", me avise que vou visitá-lo. Certamente será divertido. Com a experiência acumulada, pretendo abrir meu próprio serviço de clarividência e iluminar todas almas sedentas por saberem o futuro.

Já dizia alguém: fazer previsões é complicado, especialmente sobre o futuro.

Sábado, Janeiro 26, 2008

Heath Ledger e os Leões


Quando comecei a ver o 7º documentário seguido, no mesmo dia, sobre leões, me dei conta de duas coisas:

1) Eu não gosto tanto assim de leões
2) Eu preciso fazer outra coisa

Resolvi escrever. Acho que isso vai impedir a morte iminente de metade da minha massa cerebral após tantas horas vendo o Discovery Channel. Evitei o BBB porque nem meu plano de saúde cobre morte cerebral completa.

Mas antes uma informação importante: para que nasça um único leãozinho, é necessário que ocorram cerca de 3.000 cópulas entre um casal de leões. Sim, o leão, além de rei da floresta é um verdadeiro rei da cama.

Se por um lado isso dá vontade de querer ser um leão, por outro lado... ai, de novo! Por que a gente não dorme um pouco?

Não, chega de leão! Nem tigre, puma, leopardo, pantera, chita, jaguatirica ou gato do mato. Afinal, qual é a fixação dessa gente com o leão? Começo a desconfiar de um fundo sexual nessa obsessão. É o leão isso, o leão aquilo, o leão persegue a gazela (na verdade é a leoa, pois o leão fica aguardando o prato ser morto), o leão mata a gazela, o leão come a gazela, o leão dorme, o leão acorda, o leão copula, o leão copula, o leão copula, o leão copula, o leão copula... o que? Eu, obcecado?

***

Mas quando veio o comercial do Ab Shaper, saí da minha hipnose, dei uma zapeada, e no Telecine vi um comercial que me fez lembrar de algo que me entristeceu nestes últimos dias. Heath Ledger. A morte abrupta de Heath Ledger.

É natural que fiquemos chocados com uma morte tão repentina, inesperada, de alguém tão jovem e bem sucedido. Mas seria ele feliz? Ao que parece, o ator enfrentava uma crise de depressão após sua separação, e foi encontrado na cama ao lado de vários comprimidos, indicando um possível suicídio. Fosse a causa que fosse, fiquei com a impressão de que me senti mais triste do que deveria, ou esperaria ficar.

Não tenho como fugir, no entanto, do que talvez seja a causa mais profunda dessa tristeza. Heath Ledger simplesmente me parece uma cópia de meu primo Fabio, que também morreu trágica e abruptamente. A semelhança é impactante para mim. Ambos jovens, ambos bonitos, ambos carismáticos. Pode ser que eu só esteja arranjando explicações para o que não sei, mas o fato é claro: um me lembra o outro. E com isso vêm todas memórias de momentos compartilhados, de afetos multiplicados, de risadas nascidas da mais profunda conexão. A morte nos lembra da fragilidade de qualquer vida, da preciosidade dos poucos momentos em que estamos aqui, lembra, enfim, de nossa própria mortalidade, incompreensível mas absoluta. Não é a toa que ficamos tanto tempo fuçando a vida íntima dos leões.

Nossa vida é uma sucessão de perdas. Pessoas de quem gostamos nos deixam. Outras crianças roubam nossos brinquedos. E seguimos vivendo, com buracos n'alma e sem alguns chocalhos. Ao fim, nem Christian Dior consegue remendar nossos trapos. Mas também, todos esses buracos não necessariamente tornam a peça inutilizável. De alguma forma misteriosa, sua falta pode nos levar a compensar sua ausência com mudanças mais profundas. E nunca tornamos a ser os mesmos.

O que tudo isso quer dizer? Fora o fato óbvio de que filosofia não é meu forte, pode significar muitas coisas. Gosto de pensar que, como Henfil disse, se não houver frutos, valeu a intenção da semente. Que sou grato por ter vivido com tantas pessoas fantásticas, mesmo que tenha já perdido muitas e vá perder ainda mais. Que isso leve a uma tentativa de aceitação da mortalidade, nossa e dos outros - digo tentativa, porque acho que de certa forma nunca nos conformamos, e isso é bom. Para alguns, o conforto é a vida eterna. Para mim, o conforto é ter tido o privilégio de simplesmente ter vivido. Isso, sim, é um milagre.


"Prefiro antes os desacertos do intento às certezas da inércia".
Pe. Antonio Vieira.

Veja o vídeo de Brokeback Mountain, com a belíssima música de Gustavo Salaolalla, The Wings.

Segunda-feira, Outubro 29, 2007

O que aprendi sobre escolher uma carreira

Não é boa a sensação de ter perdido tempo. Dizer que o tempo não se perde, ou que simplesmente passa, que sempre se aprende algo, "a experiência me ensinou muito", às vezes só irrita em vez de consolar. Às vezes não se aprende nada, às vezes não existe lado positivo e simplesmente se perde tempo. Meus alunos de marketing devem conhecer bem essa sensação.

E escolher uma carreira pode ser muito frustrante. Algumas pessoas levam muito tempo para descobrir algo que as satisfaça. Outras nunca descobrem, e na verdade é possível se sentir muito feliz mas sempre há momentos que enchem o saco, momentos de dúvida, de crises existenciais.

Eu pelo menos me questiono a toda hora se não deveria ter seguido a carreira musical com minha banda, a Falcatrua, e ter me suicidado aos 27 anos - a idade limite para virar uma lenda do rock (Morrison, Hendrix, Cobain, Joplin, et ali). O detalhe de que eu estaria morto há 4 anos me fez rever essa opção.

E quando chegou a hora de escolher de verdade, antes do vestibular, descobri que não tinha a mínima idéia do que eu queria "ser". Já tinha passado pela fase desenhista, médico (ginecologista, óbvio), cientista... A carreira que eu queria mesmo era não fazer nada e ser vagabundo. Não sabia na época que esse também era o objetivo do LFV, e foi muito bom saber que não estou sozinho no mundo.

Virar vagabundo, no entanto, é um pouco complicado, como descobri ao fazer o mestrado em marketing, há 3 anos. Dias inteiros vendo tevê. Acordando às duas da tarde. Navegando na internet. Tomando sol no Parcão. Jogando tênis na Hidráulica. Arrumando os armários. Colocando os livros em ordem alfabética, separados por assunto. Tudo, absolutamente tudo eram atividades urgentes e importantíssimas, a dissertação naturalmente tinha que ficar em segundo plano até eu decidir se separava as camisas por cor ou por estilo. Quando cansei de tanta atividade estafante, me dediquei à dissertação por 2 semanas, uns 6 meses depois que o prazo tinha acabado. Passei com B. Fico com medo de que o MEC descubra isso algum dia, casse meu título e exija de volta o dinheiro da bolsa. Por favor, não avisem.

***

Outro período importante foram os 4 anos enrolando na faculdade de arquitetura - minha primeira escolha no vestibular - o que de certa forma foi um tempo perdido. Eu seguia uma estratégia cuidadosamente calculada para não deixar de ser sustentado por meus pais e poder me dedicar à tarefa importantíssima de virar Monkey Island 2 por meus próprios méritos, sem olhar o roteiro passo-a-passo. Minha salvação foi que a UFRGS implantou a política do jubilamento, e se o aluno rodasse muito ou demorasse para se formar, digamos uns 15 anos, seria expulso. Eu tinha colegas que estavam "estudando" há uns 12 anos e eu parecia me direcionar para este caminho.

Visualizando então minha cerimônia de jubilamento, resolvi rodar mais algumas vezes e ver o que acontecia. Afinal, vejam só, jubilamento, que nome bonito e imponente. Pronuncie cada sílaba para ver, JU-BI-LA-MEN-TO. É um evento cósmico, um feito majestático, um dia pra se vestir como rei, nada daquela coisa bagaceira de formatura e toga. "E agora quero chamar meu colega Heleno". E lá ia eu, vestido com uma capa bordada a ouro, botar minha coroa - jubilamento exige coroa, no mínimo. "Pelos poderes a mim investidos, como reitor magno desta universidade, eu o declaro JUBILADO".. tambores.. fogos de artifício.. fotos.. reconhecimento da sociedade.. choro...

OK, minha imaginação é bem colorida.

O que aprendi então sobre escolher uma profissão?

- Prolongue até o limite a escolha, de preferência não escolha nada e seja sustentado por alguém.

- Se for obrigado a escolher, não vá pra arquitetura ou ramos afins que exigem muito trabalho e estudo. Escolha administração, como eu fiz depois de abandonar a arquitetura. É um curso mais fácil do que pintar com têmpera no jardim de infância, com a diferença de que essas pinturas têm um sentido mais concreto do que daunsaizin, gerar valor, alavancar os assets, e fazer um planejamento estratégico para estartar um tãrn-araund baseado no bélence-escór-cardi embasado nos córi-vélius, e outros termos tão comuns em bízines.

- E, o mais importante, treine para ficar lendo colunas sobre celebridades ou esportes durante todo dia na firma e ainda assim aparentar que está trabalhando em algo muito profundo. Se for mestre mesmo, aprenda a deixar recados e bisbilhotar o orkut através de uma planilha excel. Afinal, o que é urgente não pode esperar.

Só não esqueça de deixar um recado pra mim.

Quinta-feira, Outubro 04, 2007

"Olha que estranho o sonho que eu tive hoje..."

Há uma frase que seguidamente invade minha mente:

"O sono é uma necessidade evolucionária profunda"

Li isso em um artigo sobre o sono e desde então ela não sai da minha cabeça. Geralmente, quando vou dormir ou quando estou acordando me lembro dela.

Por que comento isso? Porque não se sabe a razão exata de o sono ser tão presente em tantas espécies animais. Alguns especulam sobre a importância de dormir para "gravar" memórias, outros sobre a reconfiguração cerebral que permite termos mais insights e sermos melhores em resolver problemas lógicos após o sono. Muitas outras hipóteses existem, e provavelmente a causa não é uma só, como em quase todos fenômenos complexos.

Escrevo também sobre isso porque junto com o sono vêm os sonhos. E como são estranhos! Pessoas que conhecemos misturadas à pessoas que não existem, pessoas de um contexto juntas à outras que não têm nada a ver com aquele ambiente, lugares que nunca vimos e lugares familiares, comportamentos absurdos, situações atemorizantes.

Hoje sonhei que tinha voltado à Nova Iorque, onde estive recentemente, sendo que no norte de Manhattan as estradas eram de chão. E lá, em frente ao mar (!), encontrei um amigo que tocava numa banda comigo morando com a mulher num super loft, sendo que ele praticamente não têm dinheiro e não entende mais de 1% das letras que canta em inglês.

Tudo bem, mas conheço poucas coisas mais chatas do que ouvir alguém contando um sonho. As pessoas têm uma necessidade absoluta de contar tudo que lembram nos mínimos detalhes. "Aí então a ameba saltou do carro e foi tomar um sorvete. Aí eu me dei conta que a ameba era eu. Aí uma Ferrari passou a mil atropelando o Bono. E aí...."). Vou poupar meus 3 leitores disso. E não me contem sonhos em detalhes, por favor. Vale para esposas, ex-mulheres, parentes, amigos, papagaios (sim, animais sonham também).

Ainda assim, para quem sonha é difícil não ficar pensando sobre o sentido dessas histórias criadas à nossa revelia. Se não pensamos no significado, pelo menos pensamos no sonho em si e tentamos lembrar das situações. Numa noite podemos ter vários sonhos, mas só lembramos deles se acordamos num estágio do sono chamado REM, sigla para Rapid Eye Movement. É fácil reconhecer quando estamos sonhando, basta ver os olhos de alguém mexendo de um lado para outro ao dormir.

Ok, mas qual o sentido de um sonho? Muito já foi escrito sobre isso, Freud provavelmente foi quem tentou responder a esse enigma com o maior nível de detalhismo. No entanto, parece que ele estava errado em quase tudo, e nisso também. Alguns cientistas hoje afirmam que não há sentido nenhum nos sonhos, seriam apenas divagações aleatórias de nossa mente libertada do controle deliberado que exercemos quando em vigília. É difícil acreditar nessa teoria, tantas são as ocasiões em que sonhamos com algo que tem nos preocupado ou impactado de alguma forma.

O sentido, se há, certamente tem a ver com situações específicas ocorridas a cada indivíduo, e com a personalidade, comportamento, vivência e atitudes dessa pessoa. Nada de avançado nisso, é óbvio até e não poderia ser diferente. O que não parece tão óbvio é que mesmo que saibamos todas circunstâncias, experiências e pensamentos de alguém, não temos como fazer uma leitura adequada de um sonho e desvendar seu significado, como a psicanálise defende.

Se já é complicado explicar comportamentos conscientes, quanto mais algo sobre o que temos menos controle ainda. Abraçando a recente teoria, cada vez mais fundamentada, de que não temos realmente livre arbítrio, e que simplesmente criamos explicações para nossos comportamentos, podemos ter um caminho para desvendar o sentido dos sonhos. Mesmo assim, não acho que faremos isso de uma forma confiável.

No fundo, podemos especular, criar muitas teorias, mas entender realmente o significado de um sonho parece estar no reino dos caminhos sem rumo, uma empreitada sem sentido. O que podemos, sim, é buscar desvendar o porque de sonharmos e o porque de termos essa "necessidade evolucionária profunda" de dormir. Há muito ainda a descobrir. Enquanto isso, vou continuar dormindo e sonhando.

Falando nisso, está me dando uma bobeira agora.... Depois conto meu sonho em detalhes pra vocês.

Quinta-feira, Dezembro 28, 2006

A fina sintonia

Raramente nos damos conta do quão frágeis nós somos. Nosso corpo é uma máquina intrincada, com milhões de partes e engrenagens. E poucas vezes, ou poucos de nós, passamos por doenças realmente sérias. A questão não é porque temos tantas doenças, e sim, por que não temos MAIS doenças?

Que nossos corpos passem a maior parte do tempo funcionando bem, isso sim é algo próximo a um milagre. É simplesmente muita coisa que pode dar errado e no entanto não é o que acontece - nossa biologia certamente não segue a Lei de Murphy. Claro, praticamente todos têm algum problema ou outro, mas em 95% do tempo estamos bem. Agora, é só aparecer uma dor de estômago (ou "estongo" como dizem alguns) para a gente esquecer de todo o resto e se concentrar na dor. E só então nos damos conta do pouco que é necessário para nos tirar do combate.

Que uma pequena pílula possa combater essa dor, ou que possa alterar completamente nossa percepção ou até mesmo nos matar, isso me parece ainda mais fascinante. Compare nosso tamanho com a de uma cápsula e reflita um pouco sobre isso. Mas nada é mais impressionante do que perceber que coisas muito, mas muito menores, podem nos fazer muito mal: são milhões e milhões de espécies de vírus e bactérias e seres afins, prontos para nos detonar ao mínimo sinal.

E a medicina, apesar de todos avanços, ainda sabe muito pouco. Não conseguimos explicar até agora como a maior parte das drogas psicotrópicas funcionam (prozac, valium , anti-depressivos e etc.). Estamos ainda engatinhando.

Tudo isso para dizer que há algumas semanas passei muito mal, com dores horríveis e diarréia. Tenho certeza que vocês não querem detalhes do tipo quantas vezes fui ao banheiro ou como certamente bati o recorde mundial de volume de flatulência por minuto. Basta dizer que tive que pedir a minha irmã que me levasse ao hospital de madrugada. Sim, certamente lá eles saberiam aliviar minha dor. Que nada! Não fizeram nenhum exame, somente a tradicional consulta (anamnese é o nome que os "doutores" usam) e um pouco de apalpação (existe?) na barriga.

Me botaram numa sala com umas 5 senhoras tomando soro, me deram Buscopan na veia e soro fisiológico pois eu já estava desidratado. Uma hora depois a dor retornou com força total e a doutora simplesmente olha minha ficha, preparada por outra médica, e me avisa que minha "disenteria" não é de origem infecciosa ou algo assim. Bom, mas então vem daonde? E qual a solução? "Espera que passa". Extremamente reconfortante e sofisticado! Com todo avanços, não conseguem tratar uma dor de barriga. Voltei pra casa com dor e passei mais uns 4 ou 5 dias "ca**ndo água" como definiu com muita elegância um amigo meu.

Moral da história: da próxima vez vou rezar para pegar uma pneumonia ou sífilis, que pelo menos têm um tratamento mais sofisticado do que "espera que passa".

Quarta-feira, Dezembro 27, 2006

O poder da Música


“A vida sem música é simplesmente um erro, cansaço, exílio.”
Friedrich Nietzsche


(Escrito em 24/02/2006, em Buenos Aires)

Estou caminhando sozinho pela Calle Florida, no centro de Buenos Aires. São 23 e 30 e a rua está quase deserta. Estou ouvindo música no meu iPod, uma música dos Stereophonics, que é belíssima, “Handbags and Gladrags”. É um cover na verdade, mas isso não importa.

E no entanto, apesar de estar frio e ser tarde, umas 12 pessoas estão paradas ouvindo um homem solitário cantando “I Started a Joke” com sua guitarra e seu mini amplificador. Eu quase parei, mas já estava ouvindo uma música muito boa. Agora mesmo parei de escrever por uma meia hora porque comecei a ver uns clipes do Franz Ferdinando e do U2 na MTV local, bandas que vou assistir na próxima quinta (2/mar). E ver esses shows foi justamente o motivo de minha viagem.

Antes disso, estava no show dos Stones, com mais 70 mil pessoas no estádio do River. Quase morri esmagado e sem ar mas valeu cada um dos R$ 60.000 centavos. Ao fim do show, já exausto e quase desmaiando com o budum a minha volta, olhei para as pessoas atrás de mim – e eram muitas pois eu estava simplesmente espremido na grade. Estavam todas felizes, cantando junto ou apenas olhando o show com uma pura expressão de felicidade no rosto.

E no meio deste show já estava pensando em como a música tem esse poder fantástico de reunir dezenas de milhares de pessoas para ouvir 4 marmanjos (velhacos?) tocando. Mas que velhacos! Como pode? Como pode ser tão impactante? Tudo bem que eles são apenas uma das maiores bandas do mundo, mas mesmo assim impressiona. E aposto como 99% das pessoas não tinham idéia alguma sobre o que Ráguer (é como os “hermanos” pronunciam Jagger, pois eles falam todas línguas com a pronúncia deles, óbvio) cantava.

A música, até certo ponto, independe da língua ou do significado das letras, como qualquer um que faça um “enrolation” de vez em quando pode saber. A melodia, o ritmo, a levada da música já indicam muito sobre o que a música quer dizer, elas refletem um estado de espírito. Por exemplo, usando os Stones: Satisfaction é uma música de levada rápida, com poucos acordes e poucas mudanças de melodia, é uma música agitada, pra cima. Já Angie tem uma levada de balada, com acordes mais sombrios - ela começa com um Lá menor, sendo que os acordes menores geralmente induzem a um sentimento mais melancólico do que os acordes maiores.

Outro aspecto que atrai multidões para esses shows é o fator “celebridade”, a chance de ver ao vivo pessoas que geralmente só são vistas em clipes e sites. A cultura da celebridade é algo típico de nossa era. Talvez só no âmbito da religião existam fenômenos similares. Não é por nada que shows já foram comparados à celebrações religiosas.

O melhor show que vi na vida foi do Coldplay, em São Paulo, em 2003. Fui pra lá numa excursão de ônibus organizada pela Ipanema, bate e volta. Fora o fato de que eu quase não conseguia andar de tão chapado com a fumaça que infestou o ônibus durante toda viagem, foi tudo maravilhoso. E foi como estar numa missa, foi catártico, intenso. Todas pessoas cantavam juntas todas as músicas, o que até surpreendeu o Chris Martin. E para mim aquilo foi o mais próximo de uma cerimônia religiosa que eu já vi, com a diferença de que não fui obrigado a comer uma bolacha que é literalmente o corpo de uma pessoa, por mais absurdo que isso seja.

No final, a música talvez seja tão universal e poderosa porque faz parte de um instinto, um instinto mais básico do que a linguagem, algo que surgiu antes de qualquer língua. Qualquer bebê entende a linguagem universal da música. Todas culturas humanas conhecidas conhecem, criam e apreciam músicas. Os estilos mudam, os formatos evoluem, mas a música em suas mais diversas manifestações permanece e nos emociona.

Eu mesmo já tive bandas. Também não saio de casa sem meu Ipod e estou sempre cantarolando algum som. Não consigo viver sem música. Por isso, só posso reforçar e atualizar o que Nietzsche já disse há muito tempo: a vida sem música seria um saco.